Um levantamento inédito realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que as atividades econômicas ligadas ao mar – conhecidas como economia azul – têm papel relevante na economia brasileira, com impacto que chega a 6,39% do PIB nacional e 4,45% dos empregos quando se consideram também os efeitos indiretos.
O estudo, conduzido pelo professor Eduardo Haddad e pelo pesquisador Inácio Araújo, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), foi publicado na revista científica Ocean Sustainability e mapeou a estrutura produtiva da economia do mar com base em um modelo inter-regional de insumo-produto.
O que é a economia azul?
A economia azul engloba todas as atividades que dependem diretamente dos recursos marinhos e costeiros, como a extração de petróleo e gás offshore, pesca, turismo litorâneo, transporte marítimo e até administração pública e defesa em regiões costeiras.
Segundo o estudo, em 2019, essas atividades representaram 2,91% do PIB nacional e 1,07% do emprego direto. O setor de maior peso foi a extração de petróleo e gás natural, que respondeu por 60,4% do chamado PIB Azul, seguido por administração pública e defesa (7,4%) e armazenagem e transporte (7,3%).
Interligação entre o mar e o interior do país
Um dos principais achados do estudo foi mostrar como a economia do mar está conectada a cadeias produtivas longe da costa. “Quando abstraímos do conjunto da economia uma atividade ligada ao mar, como a pesca, isso afeta toda a cadeia de valor. É assim que o mar chega a Minas Gerais”, explica o professor Eduardo Haddad.
Ao considerar essa interconexão com outros setores, o impacto total da economia azul salta para 6,39% do PIB e 4,45% do emprego, mostrando sua importância estratégica para o desenvolvimento do país.
Diversidade regional e especializações locais
Embora concentrada na região Sudeste – com Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo respondendo por 82% da produção direta –, a economia azul apresenta especializações regionais distintas:
- Rio de Janeiro: extração de petróleo
- São Paulo: transporte marítimo e logística
- Nordeste (ex: Ceará): turismo costeiro e pesca artesanal
O estudo também destaca que 50 municípios litorâneos concentram 90% da atividade econômica azul, com destaque para as cidades do Estado do Rio de Janeiro.
Desafios para políticas públicas integradas
Apesar da existência de instrumentos como a Política Nacional para os Recursos do Mar e a Política Marítima Nacional, os pesquisadores alertam para a falta de articulação entre iniciativas, o que dificulta a transformação dos recursos oceânicos em desenvolvimento sustentável.
“A metodologia que criamos permite calibrar melhor as políticas públicas regionais de acordo com as realidades locais”, afirma Haddad. O modelo já começou a ser utilizado em regiões costeiras de outros países, como Ilha da Madeira, Açores e Peru.
Caminhos para o futuro
O estudo, que recebeu apoio da FAPESP, visa oferecer uma base sólida para a formulação de políticas econômicas e ambientais mais justas e eficazes, reforçando a importância da preservação e do uso sustentável dos recursos marinhos.
Foto: Campo de Garoupa na Bacia de Campos, RJ/divulgação Petrobras via Flikr
